quarta-feira, 27 de julho de 2016

Casa nova


Tomada a decisão, Tida comunicou seu pai e sua mãe que iria sair da casa deles e iria morar na beira do rio. Viveria da pesca e assim cuidaria de sua mulher e filho. A pesca estava dando muito lucro.

No outro dia bem cedo, Tida e Dirce deixaram seu filho com Francisca, que estava passando o final de semana na fazenda, com sua filha e seu marido, e foram para a beira do rio. Na área do porto, sentaram as margens do rio e começaram a conversar para decidirem onde construiriam a sua casa.

Eles ficaram conversando por horas, até que decidiram que iriam fazer a casa a uns 200 metros de distância do rio, pois logo seu filho estaria andando e se eles construíssem a casa muito próxima da margem, seria perigoso. Eles andaram e encontraram um lugar mais limpo, próximo de um córrego onde ficaria fácil pegarem água para o consumo.

Tida e Dirce capinaram e rastelaram o local para construção de sua nova casa. Como Dirce havia deixado a sopinha de seu filho preparada, ela e seu marido resolveram não voltar para casa almoçar, pois desejavam terminar de preparar o quintal para começarem a construir a casa. Naquele dia, os dois chuparam apenas algumas laranjas que Dirce havia levado na mochila.

Depois que terminaram de limpar o lugar, andaram pela mata fechada, próxima ao local, para tirar os palanques e vigas de pau que iriam servir para a construção da casa. Ficaram assim, até o final do dia, cortando os paus para, no outro dia, os retirarem da mata.

No início da noite, Tida e Dirce voltaram a pé para casa da sede. Chegando lá, seu filho já havia jantado e estava dormindo no quarto de Carmelinda. Eles tomaram banho e, depois, foram jantar. Francisca e Carmelinda já haviam preparado a janta. O pai de Tida ainda estava na lavoura, colhendo alguns quiabos com uma lamparina.

Enquanto estavam sentados a mesa, conversando sobre o lugar onde iriam construir a casa, Clarindo chegou com sua caminhonete cheia de caixas de quiabo. Ele os havia colhido com a ajuda de Laucidio e Clarismundo, o filho mais novo. Quando Clarindo juntou-se a família, jantaram e continuaram com a conversa. Num destes momentos, Clarismundo se ofereceu para ajudar a construir a casa.

No dia seguinte, Dirce e Tida levantaram muito cedo para tirar leite e deixar tudo preparado para Carmelinda preparar o doce de leite. Depois que arrumaram o leite, Dirce e Francisca acenderam o fogo da fornalha. Francisca mexia o tacho e colocava o doce na forma.

Depois de colocarem o leite no tacho, Dirce foi preparar a comida de seu filho e uma marmita, pois iriam almoçar na beira do rio, próximo onde estariam construindo a casa. Enquanto Dirce preparava a comida, Tida arrumava as ferramentas que ele e seu irmão iriam usar para cortar e furar as madeiras. Com tudo arrumado, Dirce separou algumas peças de roupa para o filho.

Ao chegarem a pé até o porto do rio, Tida e Clarismundo foram para mata buscar as madeiras que haviam selecionado no dia anterior. Dirce ficou no local, arrumando a rede para colocar seu filho, que já engatinhava pelo chão. Depois de armar a rede, pegou o filho no colo e levou-o para o córrego, para dar-lhe banho e o trocar. Colocou-o na rede e o balançou por alguns minutos, até que pegasse no sono.

Dirce olhou no relógio e viu que já eram 10 horas da manhã. Ela sabia que Tida e seu irmão chegariam logo, com fome. Com algumas pedras que encontrou as margens do córrego, ela improvisou um pequeno fogão no chão, juntou lenha e acendeu o fogo para esquentar o almoço. Enquanto Dirce esquentava a papinha do filho, Tida chegou carregando algumas madeiras e, seu irmão, carregando palhas de bacuri para cobrir a casa. Eles deixaram o material em uma sobra e foram almoçar. Cada um serviu o seu prato e foram comer na mesma sombra onde haviam colocado as madeiras e as folhas de bacuri.

Depois do almoço, Tida ficou cuidando do filho para que Dirce pudesse ir até o córrego lavar os pratos e panelas. Quando voltou, seu filho já estava acordado, esperando-a para comer. Tida pegou o filho no colo para que Dirce lhe desse o almoço. Já o irmão de Tida, enquanto esperava seu sobrinho comer e seu irmão descansar, foi até o rio com algumas minhocas pescar. Ao terminar de dar a comida ao filho, Tida armou outra rede para descansar. Dirce ficou deitada na outra rede, junto com o seu filho e, ali, os dois ficaram conversando por alguns minutos. Sem conseguirem dormir, Tida e Dirce, com seu filho no colo, resolveram ir pescar com Clarismundo. Pegaram alguns peixes, que os limparam ali mesmo na beira do rio e os guardaram para levar e fazê-los no jantar na casa da sede.

    Por volta das três horas da tarde, Tida, Dirce, com seu filho no colo, e Clarismundo, foram para a mata cortar mais madeira. Após cerca de duas horas, retornaram ao local onde seria construída a casa. Dirce carregava seu filho no colo e levava as ferramentas. Tida e seu irmão carregavam as madeiras. Em seguida, foram até o córrego tomar água fresca, pois a que haviam levado de casa já havia acabado. Enquanto Tida e Clarismundo foram cortar mais folhas de bacuri, Dirce foi dar outro banho em seu filho. Quando voltaram com as folhas, Dirce já havia colocado o filho para dormir na rede e foi ajudá-los a furar os buracos dos esteios e colocar as vigas que serviriam para construir o telhado.

Dirce ajudava um pouco e, sempre que podia, ia olhar o filho. Mesmo sem uma lamparina, eles ficaram trabalhando por mais algumas horas. Lá pelas oito horas da noite, voltaram para casa, levando a lanterna, as panelas e os peixes no carrinho de mão.

Chegando em casa, Dirce deu um último banho no seu filho, que estava com fome. Após o banho, Tida foi cuidar do filho para Dirce ir tomar banho e fazer a janta. Quando chegaram, todos haviam saído, ido para Coxim. Carmelinda havia deixado um bilhete dizendo que foram para a cidade para vender os quiabos e levar a filha de Francisca tomar vacina no posto de saúde. Pediu para Tida e Dirce cuidarem do leite e do doce no dia seguinte, com a ajuda do irmão mais novo de Tida.

Dirce foi cortar e temperar os peixes que haviam pego. Enquanto Dirce preparava o jantar, Tida conversava com seu irmão sobre como fariam a cobertura da casa. Se só colocariam a palha ou a trançariam, o que daria um pouco mais de trabalho. Tida achou melhor usar a palha das folhas trançada, dada a maior segurança.

Dirce preparou o jantar rapidamente, pois todos estavam com muita fome. Ao terminar o preparo, todos se sentaram a mesa e comeram. Enquanto Dirce jantava, também alimentava seu filho. Terminada a janta, Tida foi cuidar de seu filho para Dirce lavar a louça e guardar a comida. Ao finalizar os afazeres, Dirce colocou seu filho para dormir. Já Tida, junto com seu irmão, foi preparar as iscas para pescar no outro dia.

Quando Tida foi para o quarto, seu irmão já havia ido se deitar. Chegando ao aposento, Tida percebeu que seu filho já estava dormindo e que Dirce ainda estava acordada. Ele achou estranho, mas foram dormir.

No outro dia, ao acordar, Dirce se queixou de tontura e muita dor no estômago. Mesmo com dores, ela deixou o filho dormindo e foi para o curral tirar o leite junto com Tida e seu cunhado, pois queriam terminar os afazeres logo para irem mexer com a construção da casa. Tida queria muito terminar a casa, para continuar com a pescaria. Ele sabia que enquanto estivesse envolvido com a construção teria pouco tempo para pescar. Talvez apenas no horário de almoço. Com a ajuda de Dirce, Tida e seu irmão terminaram muito cedo de tirar o leite. Enquanto Tida e seu irmão acendiam a fornalha para preparar o doce de leite em barra, Dirce foi até a casa ver se seu filho já havia acordado. Também foi preparar a comida que levariam para a beira do rio, para almoçarem. Quando terminou o serviço da casa, seu filho já havia acordado e, assim, voltou para a fornalha, com o filho nos braços, para preparar as formas que iriam colocar o doce. Chegando lá, Tida e seu irmão já estavam com o doce dando ponto, pronto para ser posto na forma. Dirce deixou o filho no chão e foi arrumar as formas.

 Assim que terminaram de colocar o doce na forma, Dirce olhou para a estrada e percebeu que seu irmão estava vindo em direção a casa. Ela ficou muito feliz, pois sabia que seu irmão estava trazendo noticias de seus pais. Enquanto terminavam de arrumar a fornalha, Ercilio chegou e logo foi pegando o sobrinho no colo. Dirce ficou feliz com a presença do irmão, que viera passar o dia com eles. Ercilio também viera para ajudar com a construção da casa, pois sabia que Tida e Dirce queriam muito se mudar para a beira do rio. Quando Tida e seu irmão terminaram de fazer o doce e de limpar a fornalha, Dirce colocou um lençol no carrinho de mão e arrumou as panelas que usaria para esquentar a comida na beira do rio. Tida ainda juntou mais algumas ferramentas e pegou as isca.

Já eram dez horas da manhã quando foram para o rio. Tida carregava algumas ferramentas, seu irmão as iscas e seu cunhado outras ferramentas. Dirce foi empurrando o carrinho de mão, com seu filho e as panelas. Assim foram. Com alguns minutos de caminhada, Dirce começou a sentir tontura novamente. Pararam debaixo de um pé de pequi que tinha uma sombra grande e, por alguns minutos, descansaram, até que ela melhorasse. Assim que melhorou, continuaram com a caminhada. Chegando ao local, Dirce deixou seu filho com seu irmão e foi buscar água no córrego, para preparar a comida. Assim que Dirce voltou, Ercilio foi ajudar Tida a colocar as vigas nos esteios que haviam colocado no dia anterior. Clarismundo, por sua vez, foi ao rio armar algumas varas de pescar no barranco.

Enquanto Dirce preparava a comida, seu filho brincava pelo chão, por perto, e Tida trabalhava com Ercilio e seu irmão. Assim que Dirce terminou de preparar a comida, todos foram almoçar. Dirce aproveitou que tinha cozinhado o feijão e deu caldo com arroz para seu filho. Logo após o almoço, descançaram por pouco tempo e continuaram o serviço. Tida queria terminar de por as vigas e cobrir a casa com a palha naquele dia, pois seu cunhado estava ali para lhes ajudar. Enquanto Tida cortava a palha, Ercilio e seu irmão foram colocando os pregos nas vigas que faltavam. Como não estava passando bem, Dirce foi até o córrego dar banho em seu filho e foram dormir, cada um em uma rede.

Quando Dirce acordou, sua casa já estava toda coberta e Tida estava terminando de arrumar os esteios que iam ser colocados em volta da casa. Ercílio percebeu que sua irmã não estava bem e pediu para Tida levá-la para o hospital, na cidade, para ver o porquê do mal estar durante o dia. Tida concordou com seu cunhado e resolveu trabalhar até mais tarde, sem ir pescar após o serviço, como fazia todos os dias. Enquanto Tida trabalhava, Dirce ficou deitada na rede, observando o filho brincar perto do marido. Ali trabalharam até às dez horas, com a ajuda de uma lamparina.

 Quando terminaram o serviço, foram embora caminhando. Tida foi empurrando o carrinho de mão com as panelas e seu filho deitado no lençol, dormindo. Ercílio, durante a caminhada, disse que iria trabalhar para Tida no outro dia, para que ele e Dirce pudessem ir até a Santa Casa, na cidade. Quando chegaram em casa, os pais de Tida já haviam chego da cidade e sua mãe estava preparando o jantar e embalando o doce com a ajuda de sua nora Francisca. Ao terminar o jantar, Carmelinda chamou a todos, que vieram e se sentaram a mesa, menos Dirce, que havia dormido sem jantar. Dirce deu banho em seu filho, tomou banho e foi se deitar. Ela não estava se sentindo bem. Logo depois do jantar, todos foram se deitar. Carmelinda deixou a cozinha por conta de Francisca e foi organizar as coisas da cozinha antes de ir se deitar. Quando Tida entrou no quarto, percebeu que sua esposa já estava dormindo. Ao deitar-se ao seu lado, percebeu que durante a noite sua esposa não dormia bem, com dores pelo corpo.

No dia seguinte, pela manhã, Tida deixou sua esposa dormindo e levantou bem cedo para ajudar com o leite. Ercílio também havia se levantado bem cedo, para ajudar a todos a tirar o leite, tratar dos porcos e colocar o leite no fogo para fazer o doce. Ercílio queria terminar o serviço cedo, para ir para o rio terminar a construção da casa. Ele iria trabalhar para Tida, naquele dia, para que seu cunhado pudesse levar sua irmã para o hospital.

Quando Tida e Ercílio terminaram de colocar comida para os porcos e voltaram para casa, Dirce já havia se deitado. Quem cuidava de seu filho era Francisca. Ercílio pediu para que Tida fosse tranquilo para cidade, pois ele terminaria o serviço da casa. Também pediu para Tida trazer uma lona, para ser pregada entre os paus que iriam dividir o quarto e a cozinha da nova casa. Depois da conversa, Tida foi buscar a caminhonete que estava com seu pai nas plantações de quiabo, próximo ao curral. Ao voltar, Francisca já havia acordado Dirce e ajudado a arrumar as roupas de seu filho.

Chegando à cidade, Tida foi direto para a Santa Casa. Dirce fez uns exames, que iriam ficar prontos no final da tarde, e os médicos resolveram deixá-la em observação, pois estava fraca e precisava tomar soro. Ela ficou ali até que os resultados dos exames ficassem prontos. Neste período, Tida ficou cuidando de seu filho. Colocou-o no carro e foi entregar os quiabos que seu pai havia mandado, que eram encomendas dos clientes mais antigos. Quando chegou a hora de ir para o hospital buscar a Dirce, Tida deixou seu filho com sua irmã Joana, que tinha uma casa próxima a casa de sua mãe, na cidade.

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