quarta-feira, 27 de julho de 2016

Kemily Fernandes Helpis


No final de março de 1982, Tida levou Dirce para casa de seus pais. Ela já estava perto de ganhar o neném. Essa época foi de muita ansiedade para Tida, pois ele queria muito que Dirce tivesse outro menino. Assim, ele deixou sua mulher aos cuidados de sua mãe e voltou para o rio, para continuar com as pescarias. Tida já tinha muita experiência, conhecia os pontos onde poderia pegar os peixes maiores e os menores. Tida voltaria para a casa de sua mãe só no final de semana, no período da tarde. Levava as suas roupas, para a cunhada ou a mãe lavar. Ele voltava para o rio no período da noite, quando saia para pescar e voltava de madrugada, para dormir. Em umas dessas vindas, para visitar Dirce, percebeu que ela não estava bem e resolveu ficar ali. Naquela noite, pediu para seu irmão ir ao rio, olhar suas varas de pesca.

De manhã, no dia 5 de abril de 1982, Dirce entrou em trabalho de parto. Tida foi buscar sua tia com o carro de seu pai. Quando voltou, Dirce já estava com muitas dores e sua mãe já havia esquentado a água que Ana usaria para fazer o parto. Carmelinda entrou no quarto e foi ajudar Ana com o parto. Elas passaram a tarde toda, com Dirce sentindo muitas dores. Só no inicio da noite, Dirce conseguiu ganhar uma linda menina, a qual deu o nome de Kemily! Após muito cansaço, Ana saiu do quarto e deu a notícia a Tida, que estava ali esperando ansioso. Francisca já preparava o jantar e assim que Ana terminou de limpar o quarto onde foi feito o parto, todos foram jantar. Enquanto Ana limpava o quarto, Tida foi pegar uma galinha para sua mãe preparar uma canja. Depois que sua mãe preparou tudo, Francisca pegou a canja e foi levar para Dirce se alimentar. Ela estava muito fraca, mas logo que se alimentou, sentiu-se melhor. Enquanto comia, Francisca arrumou a neném e a colocou para dormir. Tida ficou por ali mais uma noite, ao lado da esposa. No dia seguinte, bem cedo, foi para casa. Sabia que agora precisaria trabalhar cada vez mais. Ele pescava com os turistas que chegavam e todo peixe que pegava sozinho, enquanto não estava pescando com turistas, ele os vendia para os turistas que tinham espaço de sobra no carro.

Depois de um mês, Dirce voltou para casa. Tida foi buscar sua mulher na casa de sua mãe e ganhou algumas galinhas e pintinhos de seu pai. Ele levou os animais no carrinho de mão e Dirce foi caminhando com os filhos no carrinho de bebê. Quando chegaram em casa, ele construiu um galinheiro e colocou as galinhas ali junto com os pintinhos. No dia seguinte, Tida levantou bem cedo e, enquanto Dirce dava banho em seus filhos, foi jogar milho para as galinhas. Ao arrumar tudo, os dois foram caminhando até a casa da sede, onde Tida pegou o carro de seu pai e foi para cidade levar sua filha para vacinar. Já seu filho ficou com Francisca, na fazenda. Tida e Dirce aproveitaram a ida para cidade e foram comprar ração e fazer outras compras. No final da tarde, eles retornaram para fazenda e Tida aproveitou que estava de carro e desceu até o rio para levar a compra que fez. Ao buscar sua mulher e filhos, que ficaram na casa de seus pais, sua mãe lhe pediu para lidar com o gado, pois seu pai não estava em casa. Assim que terminou, Tida pegou o leite que sua mãe havia separado no período da manhã e voltou para casa caminhando.

Chegando em casa, Tida colocou ração para as galinhas e foi preparar as iscas para pescar. Logo após o jantar, Tida deixou sua mulher e seus filhos em casa e foi pescar. Ele não quis levar sua mulher porque sua filha ainda era muito pequena para ir ao rio.

E assim Tida ficou por um período de aproximadamente 8 meses. Indo pescar sozinho e, de vez em quando, levava sua mulher com seus filhos. Quando precisavam ir para a cidade, Tida pegava o carro de seu pai. Com isso, ele conseguia trazer o que precisasse da cidade. Ele levava as compras diretamente para sua casa. Nesse período, Tida, acompanhado de Dirce, foi poucas vezes para casa dos pais, para ajudá-los na pequena roça e na ordenha do leite para preparo do doce de leite. Nesse período, Tida focou mais em suas pescarias. Nessa época os turistas começaram a vir com maior frequência. Tida ficava muito tempo pescando e quem cuidava da casa era Dirce. Seu filho já estava com quase 3 anos e Kemily começava a gatinhar. Clarindo já segurava os canecos para ajudar a mãe a jogar ração para as galinhas e pintinhos. Também, ajudava a colocar milho para os porcos. Dirce tratava dos animais com seu filho andando ao lado e sua filha no carrinho de bebê. Enquanto pescava, Tida pouco vinha para casa. Seus clientes sempre saiam muito satisfeitos com o serviço, pois Tida conhecia muito o rio e sempre pegava os melhores peixes.

Além da pesca e da ajuda a seus pais, Tida também limpava parte da Fazenda Palmital que fazia divisa com a Fazenda Aldeia e que dava acesso ao rio. A área era de cerrado e havia aproximadamente 25 hectares a serem limpos. O desmate era feito durante o dia e, à noite, ele ia pescar com sua esposa e os filhos. Os dois ficavam pescando até a madrugada. Dirce já pescava com Tida, auxiliando-o a retirar os peixes maiores do rio. Quando Tida pescava com os turistas, Dirce colocava seus filhos em um carrinho de mão e ia para a área de varjão da fazenda para retirar minhocas com a ajuda de um enxadão. Ela procurava deixar seus filhos sempre debaixo de uma sombra, próximo dela. As minhocas forneciam uma renda adicional. Tida e Dirce tinham planos de construir uma casa de material, de saírem daquela casa humilde e dar maior conforto aos filhos. Os dois sempre trabalhavam juntos. Tida sempre trabalhava com muita alegria, pois fazia o que gostava e sua família estava crescendo.

Em um final de semana, no inicio de janeiro de 1983, o pai de Tida pediu-lhe para arar a terra, onde plantaria uma pequena lavoura. Tida combinou o serviço para segunda, pois assim teria o domingo para cuidar da casa e organizar os petrechos de pesca. No inicio da semana, Tida foi com a família para casa de seus pais e começou a arar a terra. Enquanto Tida trabalhava com a terra, Dirce aproveitou para visitar seus pais. Ela foi passar o dia com eles e voltou no final da tarde. Ao chegar, Tida ainda estava trabalhando com o trator. Então Dirce deu banho e comida para as crianças e colocou-as para dormir, pois não sabia quanto tempo Tida ainda iria ficar trabalhando. Quando Tida chegou, arrumou suas coisas e foram para casa. Seu pai emprestou-lhes o carro para irem embora, pois as crianças estavam dormindo e não tinham como serem levados até sua casa caminhando. Quando chegaram em casa, enquanto Dirce arrumava as crianças, Tida foi colocar ração para as galinhas e porcos e, ao retornar, Dirce já havia feito o jantar. Jantaram e foram dormir com as crianças.

No dia seguinte, eles levantaram muito cedo. Dirce preparou o café e Tida colocou a ração para os animais. Depois foram tomar café. Enquanto estavam tomando café, Ercílio chegou. Lá pelas 6h da manhã, Tida foi com seu cunhado trabalhar com o arado e reformar a pequena lavoura de seu pai. Naquela manhã, ele deixou Dirce lavando roupa e foi com o cunhado para casa de seus pais. Tida foi trabalhar feliz, pois além da pescaria já estava terminando de limpar a outra parte da fazenda. Conversando com Ercílio, ele lhe pediu ajuda para construir uma nova casa. Com muita conversa os dois foram trabalhar.

Enquanto isso, em casa, Dirce limpou o quintal e foi lavar roupa. Deixou o filho mais velho brincando com Kemily. Como o córrego ficava muito perto de onde moravam, Dirce poderia observá-los. Enquanto lavava a roupa, Clarindo pediu para fazer xixi e ela pediu que ele viesse e deixasse Kemily no andador, pois ela poderia observá-la. Clarindo saiu e fechou a pequena porta de taboca, cheia de grandes frestas. Contudo, Dirce não se atentou para o balde de água atrás da porta. A menina ficou ali, brincando e olhando para mãe. Nesse momento, Dirce se distraiu olhando para o filho, que estava fazendo xixi na beira do córrego. Ela se desviou por alguns instantes de sua filha e, quando retomou a atenção para ela, já não mais a avistou. Dirce pegou o menino pelo braço e deixou as roupas que estavam limpas na bacia e saiu em direção a casa.

Ao abrir a porta, ela avistou sua filha de cabeça para baixo, dentro do balde com água. Pegando a filha em seus braços, percebeu que ela já não respirava. Dirce entrou em desespero, pois sua filha já aparentava estar morta. Sem saber o que fazer, ela colocou o chinelo nos pés de seu filho e, com a menina em um dos braços, saiu puxando Clarindo pela mão. Saiu pela estrada gritando por Tida, em direção a casa de sua sogra. Foi quando seu irmão, de cima do trator, avistou Dirce correndo, puxando o sobrinho. Ercilio deu sinal para Tida e os dois foram de encontro com Dirce. Quando se aproximaram, Dirce entregou sua filha nos braços de Tida. Dirce já não tinha mais voz para falar e seu filho chorava muito. Tida pegou a filha e percebeu que ela não estava mais viva. Ele ainda tentou fazer respiração boca a boca, mas já não tinha mais jeito. Kemily havia falecido.

Naquele dia, o mundo desabou em Tida e Dirce. Com a filha nos braços, Tida, ao lado de sua esposa, chegaram a casa de sua mãe. Os dois choravam muito. Colocaram a menina em uma cama e a cobriram com um lençol.

Chamaram a todos e comunicaram o falecimento de Kemily. Dirce ficou ao lado do corpo de sua filha, sendo consolada por sua cunhada, que estava grávida de seu segundo filho. Tida foi ajudar o pai, que era carpinteiro, a fabricar o caixão de sua própria filha. Quando terminaram, levaram-no para casa e colocaram o corpo da menina, que foi velado até o outro dia, por volta das 9 horas da manhã. O corpo de Kemily foi enterrado próximo a casa, na presença de alguns familiares. Quando terminaram o enterro, Dirce não quis voltar para casa. Nem Tida. Naquele dia, ficaram na casa de Carmelinda. Deus havia levado o maior tesouro que possuíam.

No dia seguinte, Tida levou sua mulher e seu filho para casa de seu sogro. Pediu para Ercílio ir até sua casa e tratar dos bichos. Pediu-lhe também para pegar algumas roupas. Chegando lá, Ercílio viu que a casa havia ficado aberta. Os bichos estavam com fome. Ercílio colocou comida para eles e, depois, pegou uma sacola e colocou algumas roupas para sua irmã e seu sobrinho. Fechando a casa, voltou para casa de sua mãe. Eles ficaram na Fazenda Palmital por quatro ou cinco dias, até que Dirce aceitou a morte de sua filha. Ela estava conformada com o que tinha acontecido. Dirce e Tida foram para casa de Carmelinda, almoçaram e voltaram à tarde para casa. Com grande tristeza no coração, continuaram com suas vidas, com a pescaria e o objetivo de construir uma nova casa. Tida já havia limpado uma área próxima ao rio.

Após alguns meses, Dirce percebeu que estava mudando, estava ganhando peso. Conversou com Tida e, quando foram fazer as compras do mês de março, foram fazer alguns exames. Além de estar ganhando peso, Dirce também estava sentindo muitas dores. Após algumas semanas, Dirce descobriu que estava grávida de novo, há um mês. A gravidez trouxe muita alegria a todos.









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