quarta-feira, 27 de julho de 2016
Mudança
Assim que todos foram embora, Tida foi ver a mulher e o filho, que estava tomando banho. Tida sentia-se muito orgulhoso, pois a cada dia ele estava mais esperto. Já Dirce, com mais outra semana de gravidez, já começava mostrar a barriga. Carmelinda sentia muito feliz com a nora, que mesmo com o filho pequeno e a gravidez não deixava de trabalhar, ajudando-a com os afazeres da fazenda. Naquele dia, Tida jantou cedo e não voltou para o rio. Queria descansar, pois havia passado a semana inteira dormindo mal e queria aproveitar para descansar. Dirce ficou ali na cozinha, com Francisca, ajudando-a a preparar alguns pães para o café da manhã. As duas ficaram ali por horas, esperando os pães assarem no fogão a lenha. Quando terminaram de assar tudo, elas arrumaram a mesa do café da manhã e foram dormir. Ao chegar ao quarto, Dirce juntou-se a Tida e ao filho na cama.
Na manhã do dia seguinte, Tida levantou bem cedo e foi tirar leite. Deixou Dirce dormindo e, quando voltou do curral, ela já estava acordada arrumando as suas coisas para se mudarem para a casa na beira do rio. Tida ficou muito feliz com a atitude de Dirce, pois ele queria muito se mudar, mas tinha medo que Dirce não quisesse ir, por ela ter que ficar sozinha na casa com o filho. Mas, como foi ela que teve a iniciativa, ele foi pegar a caminhonete de seu pai para levar as coisas até a casa na beira do rio. Ali seria apenas ele, sua esposa e seu filho. Os dois colocaram as poucas coisas que tinham em cima do carro e saíram em direção ao rio. Gastaram menos de 10 minutos da casa de Carmelinda até a pequena casa, nova, de pau a pique e coberta de palha. Mesmo grávida, Dirce ajudou Tida a descarregar o carro. Ao terminarem, Tida deixou sua mulher ali, sozinha, arrumando as coisas, voltou para casa de seus pais com o carro e retornou para casa com o carrinho de mão e com algumas iscas que havia preparado antes de fazer a mudança.
Quando chegou em casa, Dirce tinha colocado o filho para brincar na areia e estava arrumando a prateleira, onde seriam colocadas as poucas vasilhas que tinham, os alimentos que haviam comprado na cidade semanas antes e as sobras de alimentos das pescarias que as pessoas haviam deixado com Tida. Enquanto Tida arrumava a cama trazida da casa de seus pais, Dirce terminava de arrumar a parte onde ia ser a cozinha. Já Clarindo, brincava feliz na areia. Tida e Dirce aproveitaram o resto da tarde para arrumar a casa e, no final da tarde, antes que a noite chegasse, foram até o córrego para tomar banho. Dirce levou seu filho no colo. Quando voltaram, Tida aproveitou para levar a água do córrego para usarem na casa. Enquanto Dirce preparava o jantar, com a luz de uma lamparina feita na lata de óleo com querosene, Tida cuidava de seu filho, na cama, para que ele não se sujasse, pois o chão era de terra. Dirce preparou o jantar com o único som que escutavam, a dos insetos.
Assim que os dois terminaram de jantar, Tida arrumou suas iscas no balde e pegou o carrinho de mão, limpou-o e viu Dirce colocar algumas almofadas e lençol para colocar o filho, que já estava dormindo. Assim, os dois foram juntos até o rio, com seu filho deitado no carrinho de mão. Tida precisava pegar mais peixes, pois os que ele haviam pego já haviam vendido. Ele precisava trabalhar, pois os meses estavam se passando e a cada dia sua mulher estava com a barriga maior. Eles precisam juntar dinheiro para comprar o enxoval do bebê que estava por vir.
Naquele lugar, Dirce ficou deitada na areia, ao lado do filho coberto, para não pegar sereno. Ficaram até Tida chamá-los para ir embora, de madrugada. No outro dia, bem cedo, antes mesmo de Dirce acordar, Tida levantou-se e foi ao rio para ver as varas que havia deixado com as iscas armadas na beira do barranco. Chegando lá, percebeu que havia pego alguns peixes grandes, pois todas as varas estavam completamente dentro da água. Ao tirar as varas, havia mesmo os peixes que esperava, peixes de grande porte. Tida retirou as varas de dentro da água e jogou os peixes em cima de um banco de areia, de tal modo que eles não retornassem para a água. Quando terminou de retirar as varas, recolocou-as na água com novas iscas, para que na hora do almoço fosse revê-las. Tida colocou os peixes no carrinho de mão e levou-os para casa.
Chegando em casa, Dirce já havia levantado e preparado o café. Assim que chegou, Tida pegou algumas cordas e levou os peixes para o córrego, amarrando-os, para que não morressem. Eles poderiam ser deixados ali por vários dias. Por não ter freezer, essa era a única forma de conservá-los. Depois disso, voltou para casa e tomou café junto com sua esposa e o filho.
Logo depois do café da manhã, Tida foi retirar argila do córrego para fazer um fogão a lenha para Dirce, pois a única coisa que ela tinha para cozinhar era um fogareiro que Tida tinha comprado na época em que viajava para as lavouras. Durante toda a manhã, Dirce ajudou o marido com o fogão, passando o barro em sua volta. Dirce ficou muito feliz com o fogão e, naquela manhã, já fez o almoço nele.
Depois de tudo organizado, todas as vezes que Tida ia para o rio, Dirce também ia junto. Com o hábito, mesmo grávida, Dirce passou a gostar de pescar. Todas as vezes que ia junto, Dirce agasalhava muito seu filho, para ele não ficar doente.
Eles ficaram naquela rotina por dias, até o dia em que Ercílio foi visitá-los, levando notícias da mãe e do pai de Dirce. Ercílio também foi visitá-los para ir pescar com Tida, pois sabia que o cunhado já estava conhecendo muito bem o rio e que pegava muitos peixes. Nas horas de folga, Ercílio sempre voltava, para pescar e aprender cada vez mais os macetes de pescaria com o cunhado. Tida havia aprendido muito com aqueles dois anos de pesca. Além disso, Ercílio sempre teve medo de ser mandado embora da Fazenda Aldeia, pois a única coisa que sabia fazer era lidar com o campo. Precisava aprender outra profissão. Todas as vezes que Ercílio chegava, Dirce não os acompanhava. Ela ficava em casa com seu filho, pois sabia que seu marido estaria ensinado seu irmão a pescar. Todas as vezes que iam para o rio, Tida e Ercílio só chegavam de madrugada em casa. Algumas vezes, Dirce colocava o filho no carrinho de mão e ia para o rio, no final da tarde. Ela acompanhava o marido e o irmão até a margem do rio, cuidava do filho e, quando ele dormia, ela deitava na areia.
Quando Tida não estava pescando com Ercílio, ele estava pescando com os primeiros turistas que começavam a vir pescar na Fazenda Palmital, no rio Taquari. Dirce só o acompanhava quando estava pescando sozinho ou acompanhado de Ercílio. Quando os turistas apareciam para pescar, indicados por outras pessoas que ali estiveram pescando, Dirce ficava em casa com seu filho.
Para Tida não tinha tempo ruim, sempre que alguém chegava, não importava se era feriado ou domingo, ele ia pescar. Ele já começava a receber mais visitas de pessoas de outras cidades, de outros estados, de lugares distantes. Tida ficava muito animado, pois sabia que com a chegada dos turistas, iria ganhar mais dinheiro, conseguindo comprar as necessidades de sua família. Enquanto Tida pescava com os turistas, Dirce ficava em casa ou, algumas vezes, subia para casa de sua sogra para não ficar sozinha. Quando sabia que Tida voltaria do rio para almoçar, Dirce sempre fazia o almoço mais cedo, para poderem almoçar juntos.
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